Tinham
uma
tradição. Todos os dias dos namorados, evitavam os restaurantes lotados e
preparavam o próprio jantar romântico em casa. Um ficava com o prato principal,
o outro com a sobremesa, sorteados ano a ano, por justiça. Para evitar
desencontros no cardápio, sorteavam também um tema, que variava desde “França”
até algo misterioso, como “Paraísos Fiscais”, ou levemente ameaçador, como “Hannibal”.
O tema deste ano era a “A Mesa Voadora”, proposto por ele. Ela não sabia muito
bem o que isso significava. Sabia apenas que era um livro de crônicas gastronômicas
do Veríssimo, que ela não leu. Ele havia lido 3 vezes. Após alguns dias de
reflexão, ele levantou-se triunfante do sofá e declarou solenemente:
-
Eu gostaria de anunciar formalmente que eu descobri o que vou fazer para o Dia
dos Namorados, que vai ser muito massa e que vai fazer você me amar mais.
Ela
deu de ombros. Sabia que ao chegar a data teria algum insight e faria alguma coisa muito boa, provavelmente envolvendo
chocolate ou limão – mas sem muita fruta, ou ele faria cara feia.
O
dia 12 de junho veio e foi, e ambos concordaram que seria sábio adiar a
comemoração. Com o Euro do jeito que está e o Bolsonaro liderando as pesquisas,
não é mesmo época para preciosismos. Selecionaram, enfim, a data, em um dia 4
de agosto, sábado, de agenda livre. Na véspera, ela ainda muito sem ideia do
que fazer. Ele, inspiradíssimo!
-
Só pensei 3 pratos até agora.
-
Três pratos?!
-
Sim! Faltam ainda 2. E que pratos! Que pratos! Les champignons, ma cherie!
Quando
o dia finalmente chegou, ela começou a ficar preocupada. Ele, parecia dois anos
a frente, em busca de ingredientes exóticos e um tanto preocupantes. Os
champignons ela já havia entendido. Frutos do mar, ok. Duas latas de sardinha?
Han? Filé mignon suíno, cabeça de peixe, aspargos, coxinha de galinha,
mortadela, lecitina de soja, salsinha e parafusos.
Ela
decidiu fazer algo com creme inglês, chocolates e maracujá, uma das poucas
frutas permitidas.
Chegada
a hora da refeição.
-
Amor, o tema, na verdade, carecia de um subtema. Isso ficou muito claro para
mim naquele dia. Sim. Oui. O livro é
um grande comentário à gastronomia. Mas carece de uma atualização. Oui. Un
“actualizacion”. Falta ali culinária contemporânea. Eis o tema de hoje!
Culinária Contemporânea! Coisas novas! Existentes em outro plano! Habitantes do
Zero Grau de Robert Cooper! E através da força pura da ação eu hoje vou revelar
coisas novas em nosso mundo, trazidas direto do latente através da comida! Hoje
eu não cozinho com as panelas! Mas com ideias! Você irá comer minhas ideias!
Sim,
ele, que nunca havia sido muito são, finalmente enlouquecera. Mas pelo menos
não havia nenhum sinal de funcho.
-
Quero uma fanfarra!!!
-
... han, fanfa...?!
-
Les champignons, ma cherie!!!
Mas
não eram champignons. Eram aspargos. Mais precisamente, um único aspargo,
aberto no meio na parte de baixo, centralizado no prato.
-
... mas nem um molhinho?
-
Non é salada para ter molhinho! É “Asperges dans l'eau d'asperges avec le coeur dehors”!!! – Disse ele, com típico sotaque de
quem não passou do primeiro semestre no cursinho de francês.
O
aspargo sem contexto foi seguido, finalmente, dos champignons. Ufa, melhorando
um pouco.
-
Les champignons, ma cherie!!! Apresento
finalmente essa maravilha da culinária contemporânea, “We are the champignons, une ode à la France
championne de la coupe du monde de la FIFA™”!!!
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We are the champignons, une ode à la France championne de la coupe du monde de la FIFA™ |
Que,
vá bem, não estavam ruins. Recheados com presunto serrano e bem temperados,
pareciam indicar uma melhoria senão na qualidade na comida, pelo menos na
categoria contexto.
-
Agora, prepara-se para a carne!!!! La
meat!!! Les champignon, ma cherie!!!
Antes
de cada prato, tombava em frente a ela a placa com o nome específico de cada
prato, escrito em francês, provavelmente traduzido no google. “So Screwed! Se
souvenir des garçons thaïlandais piégés dans la mine de charbon.”
-
Acho que isso resolve o mistério do parafuso. Esse coração de galinha está ao
ponto?
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So Screwed! Se souvenir des garçons thaïlandais piégés dans la mine de charbon |
-
So screwed, ma cherie!! Os meninos
presos por tanto tempo naquela mina de carvão!!!
-
Não era mina de carvão. Você está confundindo o time de futebol da Tailândia com
os mineiros presos no Chile. Tira o parafuso antes de comer?
-
Oui, ma cherie!!! E não vá comer o
carvão também. Le charbon! Magnifique!
Les champignon!!!
Ela
só conseguia pensar no caminho mais óbvio a partir dali. Se pedia uma pizza ou
o divórcio. Pelos cálculos dela, faltavam mais dois pratos. E seria uns 35
reais o Uber para a casa de sua mãe logo depois dele dormir.
-
Madame, é chegada a hora da sopa.
A
essa altura, qualquer limite entre o português e o francês improvisado já havia
sido quebrado.
- Oui, le soup.
-
Mas a sopa veio depois dos...
-
Shhhhhhh, mademoiselle, deixe que eu
cuido de tudo.
O
tom da voz e o sotaque mais pareciam um maitrê
capixaba vivendo em Paris a dois meses e que trabalhava como michê para
completar a renda. E assim veio a sopa.
-
Lula gratuit! La
décharge l'a quitté! Une réflexion sur le revirement conservateur en Amérique
latine au cours de la décennie 2010.
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Lula gratuit! La décharge l'a quitté! Une réflexion sur le revirement conservateur en Amérique latine au cours de la décennie 2010 |
-
Sopa Lula Livre?
Servido
em uma lata de sardinha, a sopa constava de um camarão, um mexilhão e um anel
de lula coberto por uma espuma, marca típica da mais alta gastronomia molecular.
E um pequeno tentáculo de polvo, fugindo no canto do prato.
-
Suivant, la piece de resistence!!!
-
Vamos acabar logo com isso.
- Paix entre frères: le coxinha roulé avec de
la mortadelle gratinée!!!
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Paix entre frères: le coxinha roulé avec de la mortadelle gratinée |
- Ok, isso
é uma coxinha enrolada em mortadela, peraí, isso não é culinária contemporânea,
ok, quer dizer, tem uma ideia e é uma reapropriação de comida popular, mas
não!!! Não!! Isso não é arte moderna que você vira um mictório do avesso e
expõe no Tate! Isso você come e isso
não dá para comer!
- Mas você
não consegue ver?? Essa é a história que faltava! Comida contemporânea! Espuminha!
Veríssimo passa o tempo inteiro falando de comida boa e lugares excepcionais,
crônicas sobre comida! E nenhuma linha sobre espuminha ou culinária molecular!
- MAS ISSO
AQUI É O MUNDO REAL, NÃO É UMA CRÔNICA DO VERÍSSIMO!
- Não é
uma crônica do Veríssimo, mas também não é o mundo real! É uma ficção, uma imperfeita
retratação da realidade. Você não consegue ver? Nós apenas existimos nesse
documento de word. No mundo real tem um Polvo a Lagareira no forno. Com batatas
deliciosas. As pessoas de carne e osso estão rindo dessa história.
- Então
você me criou só para passar raiva?? Então porque não fez um Polvo a Lagareira
aqui, nessa história? Mesmo que desse errado, eu não ia passar tanta raiva!
- Ora, ora,
quer algo mais contemporâneo do que metanarrativas?
- METANARRATIVAS
SÃO PÓS-MODERNAS!
- LES
CHAMPIGNONS, MAGNIFIQUE!!!
* * *
Polvo a Lagareira
O que precisa
- 800g de Polvo limpo;
- 1 cebola;
- 100 ml de vinho branco;
- Louro;
- Batatas bolinhas (das pequenas, umas 8 por pessoa);
- Uma cabeça de alho;
- Azeite, sal e pimenta do reino;
Como fazer?
- O polvo é basicamente a nossa receita padrão. Coloque os polvos limpos em uma panela de pressão com uma cebola, 100ml de vinho branco, algumas folhas de louro e 5 dentes da alho amassados (nem precisa descascar, lava, amassa e joga lá dentro). Coloque para cozinhar e, assim que começar a dar pressão, baixe o fogo, conte 10 minutos e desligue. Deixe o polvo esfriar ali mesmo, enquanto a panela sai da pressão.
- Não tem panela de pressão? Cozinhe o polvo em uma panela cheia de água, com os mesmos ingredientes, por 50 minutos. Deixe esfriar ali na água mesmo.
- Batatas: lave bem as batatas, tempere com sal, coloque em uma assadeira e leve ao forno médio por 40 minutos.
- Esfriando o povo, retire só ele da panela, tempere com sal e pimenta do reino. Separe os tentáculos deixando 2 ou 3 juntos.
- Junte o polvo à assadeira com batatas já pré-assadas. Espalhe por cima 8 dentes de alho esmagados e regue com azeite (coloque a quantidade que você curte, mais azeite se você quer algo raiz, menos azeite se quiser algo light, mas coloque azeite por cima).
- Volta pro forno médio por uns 10 minutos, ou até o polvo dourar e pronto.
Originalmente deve-se finalizar jogando muita salsinha picada por cima. Como Veríssimo odeia salsinha, não colocamos. Em respeito.
Servidos com Aspargos, sem salsinha.